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3 de Abril de 2020

A Advocacia Tem Futuro?

Giordano Bruno Soares Roberto, Advogado
há 3 meses

Pensando no futuro, somente em três cenários hipotéticos a advocacia deixaria de fazer sentido.

No primeiro, se a humanidade ficasse reduzida a um único homem. No segundo, mesmo havendo mais de um homem, se os conflitos desaparecessem. No terceiro, mesmo havendo conflitos, se os próprios interessados conseguissem resolvê-los pessoalmente.

Em todos os outros cenários, a advocacia parece indispensável. Para dizer de modo mais claro, haverá advogados enquanto houver conflitos sociais significativamente complexos.

Assim, é possível dizer que a advocacia tem futuro. A questão, no entanto, é de que tipo de futuro se trata. O futuro da advocacia será bom ou ruim? Vale a pena investir nessa carreira? Estudantes de Direito deveriam pensar na advocacia como alternativa profissional?

Muitos fatores nos levariam a pensar em respostas negativas.

Em primeiro lugar, o mercado parece estar saturado. O Brasil já tem 1.166.027 de advogados, além 1.280 cursos de Direito.

Em segundo lugar, a prestação jurisdicional no Brasil tem sido terrivelmente lenta. A média de duração de processos é de 8 anos e 1 mês na Justiça Federal e de 6 anos e 2 meses na Justiça Estadual.

Em terceiro lugar, a grande maioria dos advogados brasileiros recebe remuneração incompatível com as características da profissão.

Em quarto lugar, o índice de adoecimento mental é maior entre advogados do que no restante da população. Nos Estados Unidos da América, por exemplo, onde há estudos disponíveis, a propensão ao suicídio entre advogados é 3,6 maior do que a média geral.

Tudo isso parece suficiente para desanimar qualquer candidato. No entanto, eu penso que a advocacia ainda faz sentido, desde que o interessado saiba inserir, em sua estrutura, ao menos um elemento novo.

A novidade pode ter a ver com o local. Basta pensar, por exemplo, nos espaços de trabalho compartilhado. Ao utilizar um deles, o advogado se livra de pesados custos mensais e ainda pode contar com um ambiente altamente estimulante.

O dado novo pode ser o público. Por exemplo, há uma enorme quantidade de pessoas que não acessa os escritórios mais tradicionais e que não deseja utilizar os serviços da Defensoria Pública ou das assistências judiciárias das faculdades de Direito.

Outra possibilidade é utilizar uma nova ferramenta. Entre tantas possibilidades, as técnicas de negociação, bem compreendidas e bem aplicadas, podem levar a advocacia a um outro nível.

Um novo nicho pode ser uma boa pedida. É só pensar, por exemplo, nas situações envolvendo violência doméstica, em que o profissional deve conhecer Direito Penal e Direito Civil, sem se descuidar, no entanto, dos cuidados necessários para realizar a escuta ativa e o acolhimento eficaz.

A novidade pode vir da metodologia de trabalho do advogado. E aqui é o exemplo é a advocacia colaborativa, cujo diferencial é a existência de um acordo de não litigância, firmado pelos advogados dos dois lados do conflito, com o propósito de colocá-los na mesa de negociação em condições ideais para ajudar na construção de um acordo satisfatório.

Assim, parece claro que a advocacia não somente tem futuro, mas que o futuro da advocacia pode ser muito interessante para os que se dedicarem a ela. A introdução de um elemento novo não tem o propósito de transformar a advocacia em alguma outra coisa. Mas somente o de corrigir certos desvios de perspectiva, fazendo com que o advogado seja simplesmente o que deve ser: uma pessoa chamada para ficar ao lado de outras pessoas e ajudar na solução de um conflito.

(Texto publicado originalmente no Linkedin, em 28/10/2019)

12 Comentários

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Eu ainda sinto uma chama bem acesa, dizendo:
- Vale a pena advogar, mas atente que não é fácil e nem tranquilo.
- Seja resistente, Fátima!
- Não seja desistente, mas resistente!

Vou rimar:
- Advogar adoece, envelhece, não enriquece, ninguém se compadece, mas o triunfo uma hora acontece!

Ótima leitura do seu texto!
Obrigada, professor! continuar lendo

Caiu como uma luva esse seu texto incentivador, pois estou na fase final da faculdade e sempre tem alguns "fantasmas" que ficam na nossa cabeça, na área profissional, mas sempre quis advogar e acho que tem muitos profissionais, muitas pessoas se formando a cada dia, pegando sua OAB, mas poucas que conseguem se diferenciar de um mercado competitivo. Obrigado pelas suas palavras e sua colaboração. continuar lendo

Boa sorte, colega! Siga em frente! continuar lendo

Muito bom o seu texto, Giordano! Vou te acompanhar no Linkedin. Eu acredito na advocacia. Como disse a colega Fátima, não é fácil, mas eu me motivo pensando que a advocacia precisa de mim e eu preciso da advocacia. continuar lendo

Obrigado pela explanação. No entanto, com todo respeito, o judiciário desconhece o significado de justiça. Algumas Turmas especialmente do STJ usam a chamada inteligência artificial, somados aos contra o 'v' e contra o 'c' e aplicam a SÚMULA 7 e, ferrem-se os jurisdicionados e, por consequência, a advocacia, que vira o bode expiatório.
Quer dizer, quem sofre uma injustiça paga muito caro PELAS CUSTAS JUDICIAIS E DESPESAS COM O SR. OFICIAL DE JUSTIÇA, para ao final se deparar invariavelmente com um sentença 'sem pé e sem cabeça'. Ainda bem que há ainda uns poucos Juízes que honram sua vocação. Os que não honram tratam mal os advogados, se esquecendo que somos formadores da opinião pública ... o resultado é o descrédito da Justiça! continuar lendo